Entre dissidências de gênero e a menstruação em terreiros de Umbanda

De acordo com a intelectual Oyèrónkẹ́ Oyěwùmí, o pensamento ocidental estrutura o gênero a partir de uma lógica binária — mulher/homem — fundamentada em atributos biológicos e sociais, naturalizando classificações que organizam corpos, identidades e papéis de forma fixa. Ao realizar a pesquisa de iniciação científica, em 2025, intitulada “Corpos dissidentes que menstruam nos terreiros de Umbanda”, tornou-se evidente o quanto a própria abordagem esteve atravessada por esse enquadramento, exigindo uma autocrítica metodológica.

Essa percepção emergiu da questão central: como pessoas trans masculinas e não binárias participam dos cultos religiosos considerando suas identidades de gênero e a experiência da menstruação? O termo “corpos dissidentes” foi inspirado em Za Chacon (2024), cuja contribuição possibilitou pensar a pluralidade das experiências menstruais.

A discussão dialoga com interpretações clássicas, como as de Roger Bastide (2001), que apontam tabus ligados à menstruação em contextos afro-diaspóricos, frequentemente associados a corpos cisgêneros. A pesquisa tensiona essas leituras ao incluir corpos trans e não binários como sujeitos de análise. Além disso, conforme Luis Nicolau Parés (2008) e Cláudia Santos (2023), as religiões de matriz africana no Brasil passaram por processos históricos de resistência e negociação, protagonizados sobretudo por mulheres negras, incorporando, em certa medida, categorias ocidentais de gênero.

Contudo, Oyěwùmí destaca que sociedades iorubás pré-coloniais não se organizavam por gênero, mas pela senioridade — posição relacional baseada em idade e experiência. Assim, papéis sociais eram definidos de forma contextual, e não por uma divisão fixa entre homem e mulher.

Os resultados mais significativos indicam que, nos dois terreiros analisados, não foram observadas hierarquizações baseadas em gênero ou menstruação. Evidencia-se uma dinâmica próxima a lógicas não ocidentais, permitindo que corpos dissidentes que menstruam participem plenamente. Mesmo em um contexto marcado por violências estruturais, como a transfobia, os terreiros configuram-se como espaços de acolhimento e relativa suspensão de normatividades excludentes, possibilitando a existência desses sujeitos sem constante negociação social.

REFERENCIAS BIBLIOGRÀFICAS

ALEXANDRE, Cláudia Regina. Exu-Mulher e o Matriarcado Nagô: sobre masculinização, demonização e tensões de gênero na formação dos candomblés. 01. ed. Rio de Janeiro: Aruanda Editora, 2023.

BASTIDE, R. O Candomblé da Bahia (Rito Nagô). São Paulo: Companhia das Letras, 2001 (ou edições anteriores como Ed. Nacional 1978)

CHACON, Z. S. Bases para uma Educação Menstrual Popular e LGBTQIAPN+. 2024.

OYĚWÙMÍ, Oyèrónkẹ́. Estudos africanos de gênero. São Paulo: Martins Fontes; Itaú Cultural; Fundação Tide Setubal, 2025.

PARÉS, Luis Nicolau. A formação do Candomblé: história e ritual da nação jeje na Bahia. 3. ed. rev. e ampl. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2018.

 

Descrição da imagem: pintura feita á mão 

Crédito da imagem: Pintura inspirada no Trabalho intelectual do Za Chacon