Hoje vai ter plateia? – Ensaio sobre mulheres, música e menstruação
12/9/2026 – Alice Kuschnir – Rio de Janeiro – RJ
Caminho com o guitarrista de uma banda nova, da qual fui convidada para fazer parte. Ele conhece a direção para o estúdio onde está marcado o primeiro ensaio teste. O cenário é uma porta dentro de uma galeria no bairro da Tijuca no Rio de Janeiro. Dentro , encontro com um estúdio de música minúsculo e o seu dono: um homem branco de meia-idade careca vestido com uma blusa de flanela fedida, que abre a porta para nós, cumprimenta o guitarrista, olha para mim, olha pra ele e diz: “Ah, hoje vai ter plateia?”
Essa simples pergunta desencadeou em mim uma série de outras perguntas: Que pessoa iria apenas assistir ao ensaio enquanto carrega 15 quilos de pratos de bateria nas costas? Em que espaço alguém poderia assistir o ensaio naquela sala minúscula? E sem cadeiras? Será que alguma mulher já aturou isso? Teria ele pensado que eu namorava o guitarrista pelo simples fato de eu ter chegado junto dele? Quantas mulheres devem frequentar esse estúdio? Será que já foram mais musicistas ou namoradas? Como que esse cara pode gerar essa conclusão em questão de milissegundos e falar com tanta confiança?
Eram 9 da manhã quando isso tudo aconteceu, eu tinha acordado às 6:30, feito alongamentos durante 20 minutos para me preparar para o ensaio, tomado café da manhã, aquecido as mãos com técnicas de baquetas, arrumado os itens de bateria que eu precisaria, pego dois transportes públicos e andado por mais 20 minutos carregando peso. Apenas olhei para a cara do sujeito, e disse “não”.
Não foi a primeira vez que me ocorreu algo assim, e talvez a pior parte dessas situações seja que eu sempre fico com a sensação amarga de que eu gostaria de ter respondido algo a altura do incômodo que o sujeito causou em mim. E depois quando conto para outras pessoas sempre surgem ideias ótimas de respostas igualmente ácidas e engraçadas que me dão tanta vontade de voltar no tempo para dizê-las e ver a reação, como: “só se a plateia for você! “. Mas a realidade é que para mim, que dedico a minha vida inteira à música, é uma afronta tão absurda desassociar a minha pessoa desse ambiente, que um simples “não” rápido vem como uma negação imediata para algo tão fantasioso.
Estou menstruada nesse dia. Depois de participar como instrumentista do ensaio, tocando bateria durante duas horas, peço ao dono a direção para o banheiro do lugar. Ele me aponta para uma privada ao lado da porta de vidro que dá para a galeria, com uma porta sanfonada que mal fecha, uma pia por cima da privada, um único rolo de papel higiênico escondido atrás de itens de manutenção, e nenhuma lixeira. Esse último fator é determinante para constatar a relação entre aquele espaço e a presença de mulheres nele.
“Uma das formas mais difundidas de discriminação de gênero experimentadas diariamente pelas mulheres é o acesso inadequado a banheiros privados. A alegação é de um novo artigo de pesquisadores da Escola de Saúde Pública Mailman da Universidade de Columbia e do Comitê Internacional de Resgate, ambos dos Estados Unidos, publicado na revista Water, em uma edição especial sobre Água, Saneamento e Higiene em Contextos Humanitários. As mulheres têm necessidades de saneamento únicas em comparação aos homens. Isso porque cerca de 1/4 de todas as adultas do planeta estão menstruadas agora – ou a qualquer momento.Segundo Maggie Schmitt, uma das autoras da análise, a falta de banheiros adequados – com portas, fechaduras e latas de lixo – resulta em estresse, constrangimento, desconforto físico e violência (física e moral) baseada em gênero.” *
Ainda mais, quando consideramos que era um estabelecimento especializado, numa zona segura e movimentada de uma metrópole como o Rio de Janeiro, com acesso a saneamento básico, ar condicionado, equipamentos de alta tecnologia, instrumentos musicais caros…A ausência de uma lata de lixo no banheiro nesse contexto reafirma a discriminação verbal do momento em que entrei naquele ambiente.
“A rua – e todo o espaço público – não era um espaço para mulheres. Não era um espaço de mulheres. A mulher pertencia à casa, e seus assuntos pertenciam ao espaço da casa. E podemos perceber, até os dias de hoje, quantos espaços físicos públicos estão despreparados para a presença e a permanência de mulheres.” Waquim, 2024**
Dessa forma, podemos entender o contexto histórico do amadorismo associado às musicistas. Para as mulheres tocar um instrumento sempre foi um indicativo de inteligência e sutileza desde que praticado dentro das paredes de casa. Sem a possibilidade de expansão, reconhecimento e retorno financeiro que o público poderia oferecer. Assim, os espaços que possibilitaríam isso nunca foram moldados para nos favorecer, ou ao menos nos receber. E seguem sendo em muitos casos.
Deixei o estúdio de música com um papel ensanguentado dentro da privada de presente para o dono, e essa reflexão que registro aqui para talvez da próxima vez que algo assim me ocorrer ou ocorrer a alguém, possamos devolver o incômodo para quem nos provoca.
*SCHMITT, Margaret L., David Clatworthy, Tom Ogello, and Marni Sommer. 2018. “Making the Case for a Female-Friendly Toilet” , Water 10, no. 9: 1193. Disponível em: https://doi.org/10.3390/w10091193
**WAQUIM, Bruna Barbieri. 2024. Sobre Muros, Pontes e… Banheiros: uma breve crônica sobre espaços femininos e feministas, IBDFAM- Instituto Brasileiro de Direito da Família, disponível em:
http://ibdfam.org.br/artigos/2104/Sobre+Muros%2C+Pontes+e…+Banheiros%3A+uma+breve+cr%C3%B4nica+sobre+espa%C3%A7os+femininos+e+feministas
Legenda ou descrição da imagem: Desenho de uma mulher de cabelos vermelhos tocando bateria

