Princesa Mononoke e a teoria da bolsa da ficção

Por Carolina Carettin
“Princesa Mononoke”, de 1997, é um dos filmes mais conhecidos do Studio Ghibli. Dirigida por Hayao Miyazaki, a animação conta a história do príncipe Ashitaka que busca a cura para uma infecção/maldição que o consome aos poucos. O pano de fundo são os conflitos na Vila de Ferro, entre deuses da floresta, humanos que exploram os recursos naturais e humanos ambíguos, que ocupam posições ambivalentes na história.
“Nesta narrativa criada por Miyazaki, as mudanças trazidas pelas formas extrativistas foram irreversíveis: o ‘coração da floresta’ foi decapitado e todos os deuses-animais foram mortos”, diz Marília da Silva Lima em seu artigo para a revista Cadernos de Campo.
A obra conecta-se profundamente às discussões sobre materialidade, extração e o inumano ao ilustrar o embate entre o progresso extrativista e os modos de vida que resistem à “Geologia Branca” (Kathrin Yussof, 2025), descrevendo a transformação da terra e dos corpos por meio da dominação e da destruição.
Os deuses e a floresta são vistos como obstáculos a serem removidos, descartados, como os corpos negros, pobres (Sylvia Wynter, 2021). A transformação de deuses em monstros (tatari-gami) é uma resposta à destruição perpetrada pelo extrativismo e pela tecnologia militar.
É neste contexto de destruição e ruínas que a resistência à lógica extrativista e desumanizante surge através de perspectivas contra-coloniais e novas formas de narrar a história. Como propõe Ursula Le Guin (2021) em “A teoria da bolsa da ficção”, a esperança não vem de um herói solitário, mas de alianças mais-que-humanas e do reconhecimento das ruínas deixadas pelo capitalismo (Marília da Silva Lima, 2024).
Enquanto a personagem de Lady Eboshi, a líder da Vila de Ferro que vê os seres da floresta como tolice, quer lutar com varas, lanças e espadas, a história de Miyazaki busca outras saídas. Como diz Le Guin (2021), nós já ouvimos histórias sobre
“(…) bastões, lanças e espadas — objetos para golpear, espetar e bater; coisas longas e duras -, mas não ouvimos falar sobre o objeto para guardar coisas dentro: o recipiente para o conteúdo. Essa é uma história nova. Isso é novidade.”
O que Le Guin (2021) propõe com a teoria da bolsa da ficção, Wynter (2021) também faz como “uma nova fronteira do conhecimento, (…) um novo horizonte que converge com outros horizontes em abertura”.
No filme, a esperança não vem de um herói solitário que salva a natureza, mas de alianças mais-que-humanas entre lobos, macacos, javalis e humanos dissidentes, como a própria Mononoke, que foi criada por lobos e ocupa esse lugar humana-animal.
“O problema é que todos nós nos tornamos parte da história do assassino, e assim podemos terminar com isso. Por isso, é com um certo sentimento de urgência que busco a natureza, o sujeito, as palavras da outra história, a não contada, a história da vida”. (Le Guin, 2021)
A proposta de Ashitaka de conviver e reconstruir sobre as ruínas conecta-se à teoria da bolsa da ficção, que busca uma história de coleta e preservação da vida, em oposição à narrativa linear de progresso e extermínio.
Enfim, Princesa Mononoke é um exemplo de histórias sobre bolsas, sementes, coletas. Expõe como a extração de recursos e a ambição humana criam uma “geologia da inumanidade” (Kathrin Yussof, 2025), onde o único caminho para a sobrevivência é a formação de alianças que transcendam as categorias coloniais de humano e inumano, já que “ainda há sementes a serem coletadas e lugar na sacola das estrelas” (Le Guin, 2021).
Referências
Le Guin, Ursula. A teoria da bolsa da ficção. São Paulo: N-1 Edições, 2021, 44 p.
Lima, Marília da Silva. A maldição do tatari-gami: especulações sobre ruínas e alianças em Princesa Mononoke (1997). Cadernos de Campo (São Paulo — 1991), [S.L.], v. 33, n. 2, p. 2–7, 3 dez. 2024. Universidade de São Paulo. Agência de Bibliotecas e Coleções Digitais. http://dx.doi.org/10.11606/issn.2316-9133.v33i2pe217739.
Yussof, Kathrin. Geologia, Raça e Matéria. In: Um bilhão de antropocenos negros ou nenhum. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2025, p. 13 a 35.
Wynter, Sylvia. Nenhum Humano Envolvido: carta aberta a colegas. In: Barzaghi, Clara; Paterniani, Stella; Arias, André (org.). Pensamento negro radical. São Paulo: Crocodilo; N-1 Edições, 2021, p. 83 a 121.
Legenda da imagem: Kodamas, os espíritos da floresta.
Crédito da imagem: Reprodução/Studio Ghibli

