O labirinto mecânico e a ciência inútil de Remedios Varo

Remedios Varo (1908 – 1963) foi uma pintora espanhola. Contribuidora do movimento surrealista europeu e politicamente próxima ao anarquismo, Remedios torna-se, durante a segunda guerra mundial, uma refugiada, escapando para o México em 1941 e permanecendo lá até sua morte. Seus quadros são habitados por seres místicos operando máquinas fantásticas, envoltos em atmosferas enevoadas.
Encontramos nas biografias de Remedios Varo descrições sobre seu interesse por filosofia e misticismo. De fato, há algo de mágico nas pinturas de Remedios, um poder sedutor que nos mantém cativas nos mundos criados com riqueza de detalhe e movimento. E um dos recursos mágicos que Remedios utiliza em sua obra é a complexidade de relações entre os entes retratados. Relações labirínticas que implicam em transmutações entre orgânico e inorgânico, sólido e líquido, rígido e mole.
Foi tentando seguir essas redes labirínticas de complexidades transmutantes que me vi enroscada em uma pintura de Remedios datada de 1955. Uma vez cativa, meu arrebatamento aumentou ainda mais quando li o título da obra, “Ciencia inútil o el alquimista”.
No quadro, vemos uma figura no centro, uma espécie de ser-cientista-alquimista, sentada em um banquinho, manipulando uma manivela cansada. Seguindo as rotas das correias e polias, encontramos um complexo sistema de engrenagens, um labirinto mecânico que interliga uma dupla de cornetas, uma roda com sino e um caldeirão. Gotas caem em dois funis, ligados diretamente no caldeirão, que é aquecido por um fogo em uma pira. Do caldeirão sai uma torneira, e da torneira gotas de um elixir, que cai diretamente em uma pequena garrafa. Arqueada em uma postura de trabalho absorto, a ser-cientista-alquimista se aninha como pode em um manto que se funde ao mesmo tempo com o chão e com ela mesma, já que penetra em transparência no seu couro cabeludo.
Uma vez capturada, tentei entender as composições da armadilha que Remedios preparou. A cada leitura da situação, ela se mostrava mais e mais complexa, me desafiando a me manter ali, nela, desfazendo e refazendo as tranças de seus fios.

Leitura 1. as nuvens se precipitam em chuva, que é colhida pelos funis, levada até o caldeirão, transformada e engarrafada. O sistema de engrenagens é acionado pela ser-cientista-alquimista. Sinos e cornetas também são acionados nesse processo.

Leitura 2. as nuvens que se precipitam em chuva estão saindo dos mesmos funis que colhem a chuva e são formadas pelo vapor que sai do caldeirão. O sistema de engrenagem é acionado pela ser-cientista-alquimista e também pela roda de sinos, que é movida através do vento. As cornetas são acionadas pelos movimentos da cientista-alquimista.

Leitura 3. O caldeirão produz, ao mesmo tempo, a atmosfera e o elixir. Através dos ventos na roda de sinos e nas cornetas, a atmosfera produz os movimentos da ser-cientista-alquimista, cujo corpo-piso dá a sustentação para o sistema de engrenagens. Não sabemos para que serve o elixir. Talvez para alimentar o fogo?

A difusão dos movimentos, das vontades e das complexidades das relações poderia ser adensada ainda mais, chegando num ponto de fusão onde torna-se impossível delimitar começos, meios e fins. Tudo é feito de e faz tudo, ao mesmo tempo. Na confusão inebriante ficamos, e nos mantemos, agora conscientes da impossibilidade de definições estáveis. Perdidas na ciência inútil, somos parte dos labirintos maquinismos de Remedios Varo, girando e nos transformando na armadilha-arte da pintora.
A alquimia, ou “mistura de líquidos” em sua origem etimológica, tem como fundamento a possibilidade de transmutação através do contato entre entes inicialmente diferentes entre si. Tempo e conhecimento acumulados são essenciais para a operação alquímica, que produz um novo que nunca é completamente novo – é uma das infinitesimais possibilidades que permanecem existindo em potência e emergem a partir da troca, transformando todas as partes envolvidas, inclusive a alquimista. Uma ciência de fato inútil, já que não há descoberta, não há explicação, não há revelação ou busca pela verdade, não há produto criado e mercado abastecido. O que há são mundos criados em composições com entes que são, assim como os próprios mundos, infinitesimais em potência.
Fico me perguntando se há uma ciência útil, ou se nossa ciência é apenas um modo de fazer mundo que resiste a experimentar outras relações possíveis. Por enquanto, estamos nos dedicando a produzir a qualquer custo a gotinha engarrafada, que serve pra quê mesmo?

 

Legenda da imagem:
“Ciencia Inútil o el alquimista”, 1955, pintura a óleo de Remedios Varo.

Créditos da imagem:
Site oficial de Remedios Varo

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