Por um jornalismo localizado

A objetividade é um conceito basilar do jornalismo que se desenvolveu no Brasil, muito baseado na perspectiva funcionalista do jornalismo norte-americano (GENRO FILHO, 1987, p. 19). Joe Sacco (2016), repórter e quadrinista, define a objetividade como a “vaca-sagrada do jornalismo”. Num pensamento dualista, a oposição à objetividade é a subjetividade, algo que vem do indivíduo, que não condiz com a “realidade dos fatos”.
Porém, em um mundo cada vez mais conectado digitalmente e com a crise da credibilidade da imprensa tradicional (SALCEDO; MENUZZI, 2021), falta ao jornalismo conexão com o leitor, espectador, ouvinte. Reportagens que trazem experiências pessoais do jornalista aproximam o leitor da notícia. São textos localizados (HARAWAY, 1995), que trazem uma perspectiva situada, narrando os dados através dos relatos.
O texto “Os lances de uma luta perdida para o câncer”, de Marcelo Soares para a Folha de S. Paulo, é um bom exemplo. Nele, o repórter mostra como o diagnóstico precoce do câncer de mama pode salvar vidas e faz isso trazendo dados sobre o assunto e incluindo a história da própria mãe que procurou um médico tardiamente e acabou falecendo.
Eu mesma terminei de ler o texto chorando por lembrar de pessoas próximas que também faleceram por conta do câncer e, o mais importante, fiquei com uma voz na minha cabeça alertando para a importância do autoexame. Ele conseguiu me alertar para o perigo do diagnóstico tardio.
Na imprensa tradicional é mais difícil encontrar exemplos de reportagens como a do Marcelo. Porém, em veículos exclusivamente digitais e alternativos – como os sites que se identificam como imprensa feminista – é muito comum encontrar relatos pessoais unidos a dados para contar uma história.
No texto “Tensão Pré Mensagem, precisamos falar dessa outra TPM” publicado pelo site Lado M, Cris Chaim fala de sua própria busca em aplicativos de relacionamentos para tratar da chamada tensão pré mensagem e traz dados de pesquisas sobre o assunto. Em outro texto do mesmo site, “Saúde mental e redes sociais: é possível conciliar?”, a autora Nina T. começa contando por que decidiu excluir suas redes sociais. Trazendo diversos dados de pesquisas e links externos, ela aborda a relação entre o uso das redes e problemas de saúde mental.
Além de se conectar com o leitor, esse tipo de narrativa pode ser útil tanto para movimentos sociais – como o feminismo – quanto para assuntos que são “difíceis” de serem tratados – ou entendidos -, como ciência e economia. Por exemplo, se uma reportagem sobre a queda nos índices de vacinação tivesse o repórter contando a experiência de alguém próximo ou dele mesmo que teve problemas de saúde por falta de vacinação, o leitor se sentiria mais próximo do assunto.
Retorno à Joe Sacco, que diz em seu livro Reportagens, publicado pelo selo Quadrinhos na Cia: “(…) os fatos (…) e a subjetividade (…) podem conviver juntos – uma coisa não impede a outra. (…) O resultado, em termos jornalísticos, é libertador.” Ao contrário do que se aprende na graduação em Comunicação, essa combinação torna o jornalismo mais humano e mais próximo –– da realidade.

 

Referências
GENRO FILHO, Adelmo. O Segredo da Pirâmide: para uma teoria marxista do jornalismo. 1987. 276 f. Dissertação (Mestrado) – Curso de Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 1987.
HARAWAY, Donna. Saberes localizados: A questão da ciência para o feminismo e o privilégio da perspectiva parcial. Cadernos Pagu 5:7-41, 1995.
SACCO, Joe. Reportagens. São Paulo: Quadrinhos na Cia, 2016.
SALCEDO, Bernardo; MENUZZI, Natália. Aumento de casos, queda na confiança: crise de credibilidade do governo durante a pandemia. 2021. Disponível em: https://www.ufsm.br/midias/arco/crise-credibilidade/. Acesso em: 30 jun. 2021.

 

Legenda da imagem:
Localizando-se, o jornalista se aproxima de quem lê, assiste e ouve sua produção. Créditos: Julius Drost/Unsplash

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