O labirinto na rotina de mulheres no Setor de Imunização

Às 17 horas do dia 21 de janeiro de 2021, após um “evento” anunciando o início da vacinação, transmitido pelo Facebook, promovido pela gestão da saúde do município de Piracicaba/SP e realizado sem programação prévia, quatro técnicas de enfermagem do Setor de Imunização da Vigilância Epidemiológica foram escaladas para dar início à vacinação na cidade. Piracicaba é uma cidade que possui mais de 400 mil habitantes, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e está localizada no interior do Estado de São Paulo.
As técnicas de enfermagem fazem parte do quadro permanente da rede de saúde municipal há mais de 10 anos. Nesse dia, elas tinham entrado para trabalhar às 7 horas da manhã e deveriam sair às 4 horas da tarde, mas não foi possível prever o horário em que deixariam o local de trabalho. Pouco antes de iniciar a vacinação, elas se vacinaram e, foram junto com o motorista do setor para a Unidade de Pronto Atendimento que, desde o início da pandemia, atende com exclusividade os casos de Covid-19 no município. Lá, deram início à vacinação dos trabalhadores de saúde. Depois de cerca de três horas, dirigiram-se para vacinar os profissionais do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu). Neste local, foram recebidas de forma eufórica, com as sirenes e luzes das ambulâncias acesas para a chegada da vacina. Nesse dia, o expediente de trabalho durou aproximadamente 15 horas.
A equipe do Setor de Imunização de Piracicaba é composta por 12 profissionais do quadro permanente e dois de contrato emergencial. Dos 14 profissionais da equipe, apenas o médico e o motorista são homens. As 12 mulheres são trabalhadoras do Sistema Único de Saúde Brasileiro (SUS).
Com larga experiência, são elas as responsáveis por um dos setores mais importantes da área da saúde no município. Apesar disso, poucas pessoas conhecem a rotina das mulheres que fazem parte desse setor. Foi, portanto, com o objetivo de dar visibilidade a essas histórias e, assim, contribuir para o reconhecimento delas como protagonistas do combate à pandemia de Covid-19, que resolvi escrever esse pequeno texto. Com isso não quero dizer que elas sejam mais ou menos importantes que outros profissionais que também têm atuado na linha de frente de combate à pandemia em hospitais, unidades de pronto atendimento, unidades de proteção social, consultórios de rua etc., tais como, médicas, enfermeiras, fisioterapeutas, fonoaudiólogas, psicólogas, assistentes sociais, terapeutas ocupacionais, educadoras físicas, radiologistas, profissionais de manutenção e limpeza, motoristas e outras.
Para que isso fosse possível, cada uma delas disponibilizou tempo em suas rotinas para responder a algumas perguntas feitas por mim sobre suas vidas. A facilidade de acesso a essas mulheres se deu porque sou casado com Laura, uma dessas trabalhadoras. Foi ela, portanto, quem tornou possível coletar e contar as rotinas que me foram narradas.
O Setor de Imunização faz parte da estrutura do Centro de Vigilância em Saúde (Cevisa), órgão da Secretaria Municipal de Saúde de Piracicaba. Diante da pandemia de Covid-19, é este o setor responsável por receber as vacinas fornecidas pelo Estado de São Paulo e por preparar as caixas com as vacinas que serão levadas por elas até os postos de vacinação. Para compor a equipe desse setor, além de ser servidor público, é necessário passar por intensos e constantes processos de capacitação, uma vez que as vacinas são substâncias muito sensíveis a pequenas alterações e apresentam características distintas na forma de armazenamento e cuidados na manipulação e controle, o que exige o estabelecimento de diversos e rigorosos protocolos.
Muitas das trabalhadoras possuem filhos pequenos, que precisam ficar aos cuidados de outras mulheres, como avós, tias, primas… para que elas possam trabalhar. Todas perderam amigos, colegas de trabalho ou familiares para a Covid-19.
No dia seguinte ao início da vacinação em Piracicaba, o despertador tocou às 3h20 a.m. na casa de Laura. Tinha ficado combinado, no dia anterior, que todas entrariam para trabalhar às 4 horas a.m. para que fosse possível dar conta da rotina comum do setor e preparar as caixas de vacina de Covid-19 para a continuidade da vacinação entre os profissionais de saúde do município.
Para que seja possível a distribuição de vacina é preciso conferir a temperatura das 11 geladeiras em que ficam armazenadas as vacinas. A temperatura dessas geladeiras deve estar entre 2o e 8o Celsius. Caso estejam fora desse padrão, as vacinas precisam ser etiquetadas e suspensas para uso até averiguação da Divisão de Vigilância Epidemiológica Estadual. Após a conferência das geladeiras é realizado o processo de preparo das caixas térmicas para distribuição das vacinas. Em cada caixa, são colocadas bobinas de gelo para manutenção da temperatura das vacinas. As bobinas de gelo são retiradas uma hora antes do preparo da caixa, pois precisam estar estabilizadas a 1o Celsius. Qualquer descuido pode acarretar no congelamento das vacinas, caso a bobina de gelo esteja abaixo de 1o Celsius, ou no seu superaquecimento, caso a bobina esteja acima de 8o Celsius. Esse rigoroso processo de preparo das caixas é fundamental para garantir a qualidade e eficiência dessas vacinas.
Neste dia, enquanto algumas delas faziam o trabalho de preparo rigoroso das caixas das vacinas, outras ligavam para os hospitais da cidade para averiguação de quantos bebês tinham nascido no dia anterior e seriam vacinados com a BCG, que protege contra formas graves de doenças, como a meningite tuberculosa e a tuberculose miliar.
Desde o dia 21 de janeiro de 2021, a euforia da primeira vacina aplicada foi se transformando em exaustão de dias intermináveis de vacinação em Piracicaba. Laura e eu acordamos diariamente às 5 horas da manhã. Ainda está escuro e é preciso levantar, pois tem que estar no serviço às 7 horas, mas antes disso precisa acordar os três filhos, de 17, 6 e 3 anos, organizar a mochila com a troca de roupa dos pequenos, para que passem o dia e deixá-los na casa da avó. Em alguns dias da semana sou eu que fico com eles mas, preciso contar com a disponibilidade da minha mãe e da mãe da Laura para conseguir desenvolver minha pesquisa de doutorado. A adolescente esteve em aulas online durante quase todo o período da pandemia. Há cerca de um mês, voltou para as atividades presenciais e precisa ser deixada primeiro na escola. Só depois disso Laura vai para o trabalho. Até o momento, a rotina de Laura e das outras trabalhadoras do setor já se alterou inúmeras vezes. O horário de início do expediente oscilou bastante desde o início da vacinação: já foi às 4, às 5, às 6 e às 7 horas da manhã. O horário do final do expediente também tem oscilado: já foi às 4, às 5, às 6, às 7, às 8, às 9 e às 10 horas da noite. Além disso, o setor funciona de 2ª a 2ª. Não é possível prever como será a jornada de trabalho de uma semana para a outra.
Desde o início da vacinação, a gestão do município alterou várias vezes as estratégias e os locais de vacinação. Existem equipes volantes para vacinar pessoas em instituições de acolhimento de idosos, acamadas e população em situação de rua; foram realizadas duas iniciativas de drive-thru da vacinação no shopping da cidade. Algumas Unidades Básicas de Saúde já foram pontos de vacinação. Atualmente, lojas de uma grande rede de farmácia e um ginásio de esportes são os pontos de vacinação no município. Para cada um desses pontos de vacinação é preciso adaptar a rotina estabelecendo fluxos e protocolos específicos. Além disso, para cada tipo de vacina (Pfizer, Coronavac, Astra-Zêneca e Janssen) é preciso estabelecer processos de trabalho distintos.
Em maio de 2021 eu, Laura e nossos três filhos pegamos Covid-19. Isso talvez tenha ocorrido por Laura trabalhar na linha de frente de combate ao vírus desde o começo da pandemia. Eu acabei precisando de quatro dias de internação, mas, felizmente, nós nos recuperamos.
Enquanto no governo federal vemos constantes ataques às medidas de proteção da saúde da população brasileira, essas mulheres lutam e arriscam suas vidas e dos seus para garantirem que a vacina chegue para toda a população. Apesar do avanço da imunização da população brasileira e da diminuição das taxas de contágio e internações, a equipe do Setor de Imunização permanece a mesma. A notícia do início da aplicação de uma 3ª dose de reforço da vacina, anuncia que a rotina de exaustão dessas mulheres está longe de terminar.

 

 

Descrição da imagem: Desenho Caixa para transporte de vacina

Créditos da imagem: Laura Lino

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