Rede privada: Relações de gênero e espaço nas pixações e escritos de banheiros universitários

Quem nunca parou para observar, analisar e, por vezes, até mesmo responder aos escritos e desenhos que habitam as paredes, cabines e portas dos banheiros públicos? Nas universidades, por onde circulamos cotidianamente (ou circulávamos, antes da pandemia), quem nunca acompanhou o desenrolar de uma discussão grafada nestes espaços latrinários, por vezes ao longo de dias e semanas, sendo coletivamente construídas?
Os banheiros públicos universitários são espaços materialmente constituídos em algumas de nossas divisões modernas mais fundamentais: ele é público e nele circulam uma infinidade diária de ocupantes, mas, por serem banheiros, representam também uma das epítomes da privacidade e intimidade; ele é ao mesmo tempo um local de circulação intensa, instituído dentro de um espaço rigidamente vigiado (por câmeras, seguranças, normas, colegas, superiores), mas onde se é permitido o anonimato e a transgressão, por se colocar à margem desse sistema vigiado institucional, permitindo por exemplo as práticas como a própria pixação; e é um espaço dividido de acordo com a matriz cisheteronomativa, distinguindo os espaços, circulações e seus corpos entre “femininos” e “masculinos”.
Como afirma Preciado (2019), é preciso estar atento à maneira pela qual a arquitetura dos espaços e sua distribuição material dos corpos e coisas é permeada e construída por diversas e hierarquizadas relações de poder e de gênero. Este autor aponta que os banheiros públicos se consolidam como elemento arquitetônico a partir do século XIX, como instituições burguesas europeias projetadas “primeiro como espaço de gestão de lixo corporal nos espaços urbanos, vão se converter progressivamente em cabines de vigilância de gênero” (PRECIADO, 2019, p. 1). Para além da separação de entrada, indicada pelas placas que nos avisam onde podemos ou não entrar de acordo com nosso “aparato genital”, também outras técnicas de manutenção do gênero são instituídas a partir dos banheiros públicos. Desta forma, nos banheiros femininos as áreas destinadas a liberação de fluidos e excrementos é inteiramente dada na esfera privada das cabines – miniaturas do sanitário doméstico – que expressam bem a construção da feminilidade pela “subtração de toda função fisiológica do olhar público” (PRECIADO, 2019, p. 2). Já nos banheiros masculinos, os mictorios – artefatos voltados para a prática de urinar e para o pênis – são instalados nas áreas compartilhadas do banheiro e acessíveis ao olhar público, em contraposição às cabines que são voltadas à defecação e ao ânus, sendo estas restritas e privadas.
Assim, os banheiros públicos funcionam como tecnologias de divisão, controle e inspeção dos corpos de acordo com os códigos vigente de masculinidade e feminilidade, operando ao mesmo tempo como reflexo e como partícipe na construção social desta divisão sexual dos corpos, identidades e performances dos indivíduos que por ele circulam. Como afirma Preciado, “não vamos aos banheiros para evacuar, mas sim para fazer nossas necessidades de gênero” (PRECIADO, 2019, p. 4).
Muitas das paisagens latrinárias são cobertas de intervenções gráficas – inscrições, disputas e conversas – os chamados grafitos, caracterizados como a literatura dos escritos de superfícies em banheiros públicos. Nas universidades, esses espaços são também amplamente utilizados enquanto suportes para diferentes formas de diálogo e interação, compondo uma ampla rede de relações da qual participam distintos atores sociais, simbólicos, materiais, espaciais e sensoriais. Nesta rede estão presentes relações entre: pessoas que grafitam, as que leem e por eles são afetadas; os próprios pixos e suas características materiais (instrumentos utilizados, suporte escolhido, localização espacial no banheiro); as estruturas arquitetônicas que compõem o banheiro; e as múltiplas e plurais mensagens, discursos e pautas contidas nos textos e desenhos grafados. Os grafitos de banheiro universitários e as “conversas latrinárias” que os compõem podem ser, portanto, apontados como portadores e participantes de importantes processos de expressão, comunicação e disputas sociais, políticas e artísticas, tal como personagens importantes em processos recíprocos e simbióticos de formação de identidades e corpos (VASCONCELOS, 2018). Podem, ainda, ser entendidos como expressões e produções coletivas, construídas de maneira dialogal e marcadas identitariamente por esse caráter interativo (VILAR et al., 2007).
Esses grafitos são também permeados por várias das questões que marcam o espaço dos banheiros – relações de gênero, anonimato, vigilância, privacidade e transgressão – dialogando intensamente, em suas temáticas e disposições, com essa gendrificação do espaço e tornando estes conjuntos gráficos especialmente potentes para se pensar as relações, disputas e controvérsias sociais dadas tanto nos ambientes universitários, quanto de maneira mais geral na sociedade moderno-ocidental. A agência gendrificada dos espaços sobre os corpos impacta na constituição de diferentes grupos de grafitos dos banheiros femininos, por um lado, e masculinos, por outro, que refletem dicotomias históricas do gênero, como apontam um conjunto de estudos e contextos em torno dessa temática (VILAR et al., 2007; DAMIÃO & TEIXEIRA, 2009; ALVES, 2014; ALMEIDA, 2018). É o caso, por exemplo, de uma sistemática presença de grafitos sobre sexo – incluindo convites e engajamentos sexuais através dos pixos – e política em banheiros masculinos, em contraposição a uma maior presença de grafitos sobre relacionamentos e saúde mental nos banheiros femininos. Além disso, estão presentes também nesses locais inscrições que coadunam com estas lógicas binárias e hegemônicas, como mensagens homofóbicas, racistas, misóginas e transfóbicas que são extremamente frequentes nestes espaços. Por outro lado, essas mesmas paredes estão cheias de diálogos a respeito de temáticas resistentes como feminismos e seus embates de pautas e vertentes, transgeneridade, lesbianidade, aborto, maternidade e discursos não-normativos sobre corpo, gênero e sexualidade.
Desta forma, estes banheiros parecem vir cumprindo ao mesmo tempo um papel reificador de estruturas socialmente instituídas na modernidade ocidental – atuando como espaços/artefatos cujo papel social é imbricado de um projeto cisheteronormativo de vigilância e manutenção dos corpos, identidades e relações de gêneros – e, por outro lado, de tensionamentos, resistências e ressignificações dessas normas e hegemonias. Analisar estes grafitos sob uma perspectiva feminista da materialidade pode nos permitir mapear: tanto algumas das diferenças, aproximações, disputas e diálogos entre os grafitos produzidos em banheiros públicos femininos e masculinos e suas participações nas produções de corpos e espaços gendrificados; quanto as distintas ambivalências, tensionamentos e resistências que se apresentam na construção coletiva desses grafitos e dos discursos e identidades com o qual eles dialogam.

 

Descrição da imagem:
Fotografia de um mictório e, ao lado, a inscrição “Rede Privada” – Grafito presente em um banheiro masculino da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFMG.

Créditos da imagem:
Flora Villas Carvalho, 2020.

 

Referências Bibliográficas:
ALMEIDA, Vinicius Santos. Bixa também pixa: a pixação gay nos banheiros masculinos como uma contestação do espaço heteronormativo. Revista Periódicus, v. 1, n. 10, p. 373-401, 2018.
ALVES, A. (2014). “Mulher faz isso! Eu não acredito!”- Uma análise dos grafitos produzidos em banheiros femininos. Anais Do X Enecult – Encontro De Estudos Multidisciplinares Em Cultura.
DAMIÃO, Natália Ferreira; TEIXEIRA, Renata Plaza. Grafitos de banheiro e diferenças de gênero: o que os banheiros têm a dizer?. Arquivos Brasileiros de Psicologia, v. 61, n. 2, p. 1-10, 2009.
PRECIADO, Paul B. “Lixo e Gênero, Mijar/Cagar, Masculino/Feminino”. Trad. de Davi Giordano e Helder Thiago Maia. eRevista Performatus, Inhumas, ano 7, n. 20, abr. 2019. ISSN: 2316-8102.
VASCONCELOS, R. D. (2018). Sentidos e(m) movimento: A construção discursiva de espaços e identidades pelos grafitos de banheiro. Dissertação De Mestrado – Programa Interdisciplinar De Pós-Graduação Em Linguística Aplicada / UFRJ.
VILAR, Fernanda Salomão; PEREIRA, Pedro Henrique Cavano; SILVA, Tiago E. da. Análise do discurso dos escritos de banheiro na universidade. Campinas, SP: UNICAMP, p. 2-3, 2007.

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