Conhecimento, tecnologia e colonialismo por Achille Mbembe

A colonização no século 21 trata de extração, captura, culto aos dados e a mercantilização da capacidade humana de pensar.

Crédito foto: Gerd Altmann/Pixabay

 

 

O filósofo e cientista político camaronês Achille Mbembe é daquelas pessoas que em apenas uma resposta de uma pergunta, um parágrafo de um livro, um resumo de um artigo, cinco minutos com um microfone nas mãos e até arrisco dizer que em um simples recado no guardanapo de papel é capaz de expor ideias e conceitos complementados com argumentos que provocam reflexões profundas. Mas se engana quem pensa que ele escreve e fala de modo difícil. Mbembe é também professor e por isso se faz compreensível para seus interlocutores, estudantes e leitoras(es). Complexos mesmo são os temas que ele estuda e traz à tona em seus livros, aulas, entrevistas e palestras. Necropolítica, racismo, escravidão, conhecimento, tecnologia, colonialismo são alguns dos assuntos que Mbembe coloca na roda para debater com a sociedade.

Neste post quero compartilhar apenas uma resposta da extensa e recomendada entrevista Thoughts on the planetary: An interview with Achille Mbembe (Pensamentos sobre o planetário: uma entrevista com Achille Mbembe) que foi divulgada em setembro de 2019 pela New Frame, uma publicação sul africana de mídia social sem fins lucrativos. Essa revista, por sua vez, traduziu para o inglês a entrevista que Mbembe concedeu ao jovem jornalista norueguês Torbjørn Tumyr Nilsen em 30 de novembro de 2018, em Bergen, na Noruega.

A minha vontade era divulgar a conversa completa, mas o espaço aqui não permite. Então, escolhi apenas uma pergunta e uma resposta, que por si só já valem por um artigo. A tradução para a língua portuguesa foi feita por mim, porém ao final deste texto há o link da versão completa da entrevista em inglês. Agora deixo vocês com essa inquietante resposta. Apenas o aperitivo para abrir o apetite para o banquete de saberes que Mbembe nos oferece.

Nilsen: Até que ponto nossos sistemas de conhecimento de hoje ainda são determinados pelo colonialismo ou pela opressão?

Mbembe: Precisamos desenvolver uma compreensão mais ampla de “colonização”. Os sistemas de conhecimento em todo o mundo ainda são sustentados pela lógica da extração de valor. De fato, o conhecimento como tal é cada vez mais concebido como o principal meio de extração de valor. A colonização está acontecendo quando o mundo que habitamos é entendido como um vasto campo de dados aguardando extração. A colonização ocorre quando jogamos pela janela o papel da razão crítica e do pensamento teórico, e reduzimos o conhecimento à mera coleta de dados, sua análise e seu uso por governos, burocracias militares e corporações. A colonização ocorre quando estamos cercados pelos chamados dispositivos inteligentes que constantemente nos observam e nos registram, coletando grandes quantidades de dados, ou quando toda atividade é capturada por sensores e câmeras embutidos neles. É disso que se trata a colonização no século 21. Trata-se de extração, captura, culto aos dados, mercantilização da capacidade humana de pensar e rejeição da razão crítica em favor da programação.

Essas são algumas das questões que o projeto de descolonização deve abraçar se quiser ser mais do que um slogan. Agora, mais do que nunca, o que precisamos é de uma nova crítica da tecnologia, da experiência da vida técnica. Por todos os tipos de razões. O que estamos testemunhando, quer vejamos ou não, é o surgimento de uma espécie inteiramente nova de humanos. Não é o humano da Renascença ou do século 18, nem o humano do início ou meados do século 20. É uma espécie de humano totalmente diferente, que está acoplada a seu objeto.

As distinções que costumávamos fazer entre o humano e o objeto não são mais inteiramente válidas. Porque hoje em dia não existe ser humano sem sua prótese. Nosso ambiente não está apenas saturado com todos os tipos de dispositivos tecnológicos. Na verdade, passamos a maior parte de nossas vidas vivendo com ou através das telas. Esta experiência tem implicações muito sérias em termos das novas naturezas de cognição, em termos de como percebemos as coisas e a própria realidade, em termos do que sabemos ou devemos saber, em termos de como sabemos o que sabemos, em termos da distinção entre fato e ficção, matéria e substância ou em termos da monopolização do pensamento dentro das infraestruturas técnicas.

Para que a “descolonização” seja mais do que um slogan e ganhe vantagem, precisamos estar atentos a essas mudanças, tanto particularmente em relação ao antropoceno quanto em relação à natureza reticular das tecnologias computacionais e à “softwarização” da nossa existência e de todas as outras entidades vivas na Terra.

Devemos resistir ao impulso de reduzir o conhecimento ao que pode ser comprado e vendido e reinventar a categoria de “relevância”. Isso só pode acontecer se colocarmos uma ênfase renovada nas questões dos “fins”, e não apenas dos “meios”. Dito isso, estou plenamente ciente do fato de que nosso mundo está passando por um período em que o niilismo está à espreita, o brutalismo é a nova norma e o desejo de um apocalipse não está longe.

 

Para ler a entrevista completa:

Thoughts on the planetary: An interview with Achille Mbembe

 

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1 Comment

  1. Rosane Aubin

    Excelente! Achei muito bem escolhido esse trecho da entrevista. E, como a autora falou, nos leva a querer ler mais.

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